Eu vim parar em São Paulo pela primeira vez com um ano de idade, e meus pais saíram do interior de Minas com a cara, a coragem, a juventude e um bebê loiro no colo pra tentar a sorte na cidade grande. E sem conhecer nada, se estabeleceram no bairro do Brás. Um bairro antigo, operário, cheio de fábricas, e referência na área de moda e têxtil, devido ao grande número de confecções fixadas ali. Hoje muita coisa mudou, o Brás não é mais o mesmo, se tornou mais violento, um grande número de asiáticos se instalaram ali e o comércio “informal” tomou conta de tal forma que fica difícil de transitar durante o dia, e perigosíssimo de andar à noite.
Mas, na minha época da Rua Padre Lima, onde morei nos primeiros anos, e depois na Rua Xavantes e por fim na minha adolescência na Rua Miller, adquiri uma visão diferente, no mínimo peculiar...pra mim, o Brás tem gosto e cheiro de velha infância...Sim, chamamos de velha infância tudo aquilo que nos dá uma certa nostalgia, uma melancolia gostosa, uma fumacinha de "flashback" que tiramos do nosso baú de lembranças quando queremos ficar bem...pra nos sentirmos melhor, mais acolhidos.
E eu que saí com 21 anos de lá, só tenho memórias boas daquele tempo. Pra mim, o Brás tem cheiro de bala e biscoito wafer...e tem cheiro de bolo de aniversário....tem cheiro de padaria.
Eu morava bem perto da fábricas das Balas Kids e sempre que voltava da escola, sentia um cheiro delicioso de doce de leite vindo das chaminés...Eu nem sei se essas balas ainda existem mas, até hoje eu me lembro desse cheiro, é como se eu pudesse sentí-lo.
E os biscoitos wafers, minha mãe passava comigo na fábrica da Tostines e comprava 2 sacos de “biscoitos quebrados” eram uns sacos enormes, de uns 3 kg de biscoitos que passavam um pouco do ponto no forno, ou deformavam, ou ainda se partiam, se quebraram, eles enfiavam tudo num saco e vendia super barato. Pra minha irmã e eu, era a mais pura e perfeita combinação de fartura e gulodice,rs.
O bolo de aniversário, às vezes minha mãe fazia, mas às vezes também era encomendado na “Doceria Bauducco” quando nem de longe imaginávamos que viria a ser sinônimo de panettone gostoso, era uma simples e fina confeitaria perto da rua do Hipódromo e que exalava um cheiro delicioso de essência de baunilha...
E tem também a Igreja de Santo Antônio do Pari, com o seu “bolo de Santo Antônio” que minha mãe cuidava para todo ano entupir eu e minha irmã pra não virarmos “solteironas”, rs. Bem, pra minha irmã deu certo, pra mim nem tanto...e como nunca me casei oficialmente, caso aconteça de novo, tentarei me casar na igreja dele em agradecimento à todo esforço desprendido, tadinho...rs.
E também havia os depósitos de doces, nas imediações da Av. Carlos de Campos...ah como eu adorava eles!! As caixas de doce de abóbora de coração! E os de batata-doce? Maria-mole? Dan-top? Os pacotes de pão de mel que popularmente são chamados de “cavacas” e tudo de mais açucarado que podia ter.
Sem contar nas inúmeras padarias com os seus sonhos se desmanchando em cremes e pedindo, implorando pra serem devorados, saboreados...
Mas por que toda essa conversa fiada sobre doces? Ok, eu me criei no meio dessa gulodice e adquiri uma visão açucarada deste bairro...é certo que quando somos crianças, o nosso olhar lúdico para as coisas deixam tudo mais bonito, mais vistoso.
Mas hoje, quando retorno ao velho Brás, me sinto uma privilegiada, por ter vivido os melhores anos de minha vida, sem preocupações, sem neuras, nem dramas da vida adulta. E, ao voltar pra dar aula na escola que me formou como profissional há 20 anos atrás, faz meu olhar se iluminar, faz um sorriso em mim se abrir, como se pudesse sim, voltar à doce infância...
LOOK 08 - como estou nostágica, look oitentinha, com direito a todo aparato de professora, com cor, meia polaina, e se sentindo a própria Jennifer Beals...rs

2 comentários:
Bom conhecer São Paulo pelas suas linhas! Adorei o texto!
Ah Nivs...tentarei descrever outros lugares que, não são tão bonitos, mas têm algo de mágico no ar...bjins
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