quarta-feira, 17 de julho de 2013

Dia 20 - Corra Lola Corra.


Comecei efetivamente a correr no ano passado, quando uma amiga me apresentou a av. Braz Leme e foi paixão avassaladora. A pista de cooper em meio as árvores frondosas, a ciclovia, os jardins bem cuidados e floridos e a larga extensão me possibilitou começar com uma caminhada leve, depois passando para os trotes e até arriscando uns tiros.

No  início, eu não estava preocupada com os benefícios estéticos que a corrida viria a me proporcionar, na verdade, corria para fugir dos problemas...e não eram poucos, pois vivia um verdadeiro inferno no meu antigo emprego, o qual fui obrigada a ser algo que não ia de encontro com a minha consciência, não era da minha natureza. Eu não me reconhecia ali, e por conta de um farto salário, acabei assumindo uma personalidade que não era a minha,  vivendo então num terrível conflito interior.

Quanto mais eu ficava insatisfeita no trabalho, mais me impulsionava a fazer alguma coisa. Eu não poderia de forma alguma conservar a raiva (às vezes até ódio cheguei a sentir), a angústia (de ter que aguentar os sapos, pois não poderia ficar desempregada)  e a decepção  (de ter feito a escolha errada), além da frustração de não ter me perguntado antes se era mesmo aquilo que queria. Como eu não dispunha de resiliência suficiente, isso tudo acabou por gerar muita ansiedade e pânico dentro de mim.

Sabe o que era acordar para ir trabalhar e já pensar no final do dia? Sabe o que era ter que encarar um monte de boçais e acéfalos  e ainda ter que sorrir? Sabe o que é sofrer pelo menos alguma forma de bulling ou assédio moral quase diariamente?  Sabe o que era trabalhar sob tão forte pressão que a única saída as vezes era correr para o banheiro  e chorar? Sabia que alguma hora o meu corpo não iria resistir, já não era mais uma garotinha,  meu organismo iria reagir,e de forma negativa,  e todos sabem, que sentimentos ruins presos dentro de nós se transformam em chagas difíceis de se curar,  pior ainda quando se transformam em doenças da alma, que levamos as marcas para além túmulo.

E tudo o que eu não podia naquele momento era adoecer...e, assim que chegava em casa, estabelecia o meu ritual:  trocava de roupa, colocava o tênis, ligava o fone, escolhia  a trilha do dia e ia pra Braz..., sozinha, às vezes com uma amiga, mas na maioria das vezes eu preferia ir sozinha, eu, e os meus sentimentos ruins.

Logo no aquecimento, já sentia uma sensação diferente, uma espécie de lucidez, de razão, à qual parava sempre pra pensar que, momentos antes quase a tinha perdido...e aos poucos, passada a passada, ritmo a ritmo, fôlego a fôlego, eu me recuperava, a visão outrora turva, começava a ficar nítida, a falta de ar, o pânico anterior dava espaço para uma respiração  mais cadenciada  e aos poucos as peças do meu quebra-cabeça mental iam se encaixando e me recolando no prumo. Quantas lágrimas aquelas árvores já não viram...e os lamentos então! E os porquês!...elas me escutavam, e a sua sabedoria me reconfortavam...até a lua me observava com tamanha compaixão que, cada vez que eu olhava pro céu, parecia que  brilhava ainda mais pra mim..., correndo, fugindo e sobretudo olhando pra frente, como se pudesse traçar o meu caminho, o meu próprio destino, me sentia um pouco melhor, pelo menos naquele instante. E depois do torpor e do cansaço, vinha uma enorme sensação de prazer...

A corrida não serviu somente como uma grande válvula de escape, ela faz parte hoje do meu projeto de vida, da reavaliação de meus hábitos alimentares e cuidados com a saúde que  aliada à musculação, tem papel fundamental como ponto de equilíbrio neste atual momento de minha vida. 

Hoje, eu deixo de beber, se tiver treino no dia seguinte, eu deixo de sair num sábado à noite, se tiver uma corrida de rua no domingo de manhã. São escolhas que fiz, não pra me tornar uma atleta, mas para ter uma vida mais saudável na "maior idade".

Além disso, cada um tem a sua forma de rezar, uns precisam de um templo, outros de uma orientação, de um ritual... já a minha forma de religar à Deus, de me conectar com a sua luz maior, é no momento que estou correndo...

LOOK 20 – Vestidinho quentinho xadrez em tons de turquesa, mas pra variar, uma  écharpe fúcsia para quebrar a monotonia, rs.

6 comentários:

Nívea Braga disse...

Adorei esse post!

na ponta da espada disse...

Que bom Nivs!! bjus

Diego disse...

Nossa! Ficou muito tocante, deu pra sentir o que você sente quando corre, parabéns! Adorei!

na ponta da espada disse...

Pois é Diego, correr pra mim é vital! bjs

Fernanda Inayá disse...

Gostei muito do texto ( na verdade todos são muito bons, mas o que quero dizer não é isso)... achei muito interessante esse look com esse texto especificamente, pode só ser coisa da minha cabeça, mas o texto fala sobre vc e muitos problemas, muitos detalhes de um passado e é exatamente o que traz esse vestido, no meu parco conhecimento de moda, ele me remete aos anos 30 ou 20... um passado. O vestido tem isso, um passado com momentos escuros, mas que também tem seus pontos de luz (exemplo as corridas, ou momentos felizes com os amigos...), e formas, tamanhos, uma complexidade de coisas diferentes... porém é um passado que, ouso dizer, foi superado. Então hoje vc pode se dar ao luxo de ‘usá-lo’.
Como já disse isso tudo pode só ser coisa da minha fértil cabecinha... mas gostei da sensação que o texto traz combinado com esse look.

Ps: amei ver a palavra resiliência sendo usada... a li uma vez e tive que procurar no dicionário não pensei que nos encontraríamos novamente, e fiquei feliz por reconhecê-la rsrsrs.

na ponta da espada disse...

Fernandinha, estou adorando as suas lúdicas observações, este vestido, é com corte anos 20 sim, e dever ter uns 10 anos, como a grande maioria das minhas roupas, mas na verdade, eu não quis postar um look esportivo e gosto muito deste vestido, que coincidência ou não, estava usando-o no primeiro dia de aula, sendo assim, tem a ver sim com superação de limites, e com corrida. bjus