Comecei efetivamente a correr no ano passado, quando uma amiga
me apresentou a av. Braz Leme e foi paixão avassaladora. A pista de cooper
em meio as árvores frondosas, a ciclovia, os jardins bem cuidados e floridos e a larga extensão me possibilitou começar com
uma caminhada leve, depois passando para os trotes e até arriscando uns tiros.
No início, eu não
estava preocupada com os benefícios estéticos que a corrida viria a me proporcionar, na
verdade, corria para fugir dos problemas...e não eram poucos, pois vivia
um verdadeiro inferno no meu antigo emprego, o qual fui obrigada a ser algo que
não ia de encontro com a minha consciência, não era da minha natureza. Eu não
me reconhecia ali, e por conta de um farto salário, acabei assumindo uma
personalidade que não era a minha, vivendo então num terrível conflito interior.
Quanto mais eu ficava insatisfeita no trabalho, mais me
impulsionava a fazer alguma coisa. Eu não poderia de forma alguma conservar a raiva (às vezes
até ódio cheguei a sentir), a angústia (de ter que aguentar os sapos, pois não
poderia ficar desempregada) e a decepção
(de ter feito a escolha errada), além da
frustração de não ter me perguntado antes se era mesmo aquilo que queria. Como eu não dispunha de resiliência suficiente, isso tudo acabou por gerar muita ansiedade e pânico dentro de mim.
Sabe o que era acordar para ir trabalhar e já pensar no
final do dia? Sabe o que era ter que encarar um monte de boçais e acéfalos e ainda ter que sorrir? Sabe o que é sofrer
pelo menos alguma forma de bulling ou assédio moral quase diariamente? Sabe o que era trabalhar sob tão forte pressão
que a única saída as vezes era correr para o banheiro e chorar? Sabia que alguma hora o meu corpo não
iria resistir, já não era mais uma garotinha, meu organismo iria reagir,e de forma negativa,
e todos sabem, que sentimentos ruins
presos dentro de nós se transformam em chagas difíceis de se curar, pior ainda quando se transformam em doenças da
alma, que levamos as marcas para além túmulo.
E tudo o que eu não podia naquele momento era adoecer...e,
assim que chegava em casa, estabelecia o meu ritual: trocava de roupa, colocava o tênis, ligava o fone, escolhia a trilha do dia e ia pra Braz..., sozinha, às
vezes com uma amiga, mas na maioria das vezes eu preferia ir sozinha, eu, e os
meus sentimentos ruins.
Logo no aquecimento, já sentia uma sensação diferente, uma
espécie de lucidez, de razão, à qual parava sempre pra pensar que, momentos
antes quase a tinha perdido...e aos poucos, passada a passada, ritmo a ritmo,
fôlego a fôlego, eu me recuperava, a visão outrora turva, começava a ficar
nítida, a falta de ar, o pânico anterior dava espaço para uma respiração mais cadenciada e aos poucos as peças do meu quebra-cabeça
mental iam se encaixando e me recolando no prumo. Quantas lágrimas aquelas árvores já não viram...e os lamentos então! E os porquês!...elas me escutavam, e a sua sabedoria me reconfortavam...até a lua me observava com tamanha compaixão que, cada vez que eu olhava pro céu, parecia que brilhava ainda mais pra mim..., correndo, fugindo e sobretudo olhando pra frente, como se pudesse traçar o meu caminho, o meu próprio destino, me sentia um pouco melhor, pelo menos naquele instante. E depois do torpor e do cansaço, vinha uma enorme sensação de prazer...
A corrida não serviu somente como uma grande válvula de
escape, ela faz parte hoje do meu projeto de vida, da reavaliação de
meus hábitos alimentares e cuidados com a saúde que aliada à musculação, tem
papel fundamental como ponto de equilíbrio neste atual momento de minha vida.
Hoje, eu deixo de
beber, se tiver treino no dia seguinte, eu deixo de sair num sábado à noite, se
tiver uma corrida de rua no domingo de manhã. São escolhas que fiz, não pra me tornar uma atleta, mas para ter uma
vida mais saudável na "maior idade".
Além disso, cada um tem a sua forma de rezar, uns precisam de um templo,
outros de uma orientação, de
um ritual... já a minha forma de religar à Deus, de me conectar com a sua luz
maior, é no momento que estou correndo...
LOOK 20 – Vestidinho
quentinho xadrez em tons de turquesa, mas pra variar, uma écharpe fúcsia para quebrar a monotonia, rs.

6 comentários:
Adorei esse post!
Que bom Nivs!! bjus
Nossa! Ficou muito tocante, deu pra sentir o que você sente quando corre, parabéns! Adorei!
Pois é Diego, correr pra mim é vital! bjs
Gostei muito do texto ( na verdade todos são muito bons, mas o que quero dizer não é isso)... achei muito interessante esse look com esse texto especificamente, pode só ser coisa da minha cabeça, mas o texto fala sobre vc e muitos problemas, muitos detalhes de um passado e é exatamente o que traz esse vestido, no meu parco conhecimento de moda, ele me remete aos anos 30 ou 20... um passado. O vestido tem isso, um passado com momentos escuros, mas que também tem seus pontos de luz (exemplo as corridas, ou momentos felizes com os amigos...), e formas, tamanhos, uma complexidade de coisas diferentes... porém é um passado que, ouso dizer, foi superado. Então hoje vc pode se dar ao luxo de ‘usá-lo’.
Como já disse isso tudo pode só ser coisa da minha fértil cabecinha... mas gostei da sensação que o texto traz combinado com esse look.
Ps: amei ver a palavra resiliência sendo usada... a li uma vez e tive que procurar no dicionário não pensei que nos encontraríamos novamente, e fiquei feliz por reconhecê-la rsrsrs.
Fernandinha, estou adorando as suas lúdicas observações, este vestido, é com corte anos 20 sim, e dever ter uns 10 anos, como a grande maioria das minhas roupas, mas na verdade, eu não quis postar um look esportivo e gosto muito deste vestido, que coincidência ou não, estava usando-o no primeiro dia de aula, sendo assim, tem a ver sim com superação de limites, e com corrida. bjus
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